AS ENCHENTES E COMO O PODER PUBLICO ENGANA
No começo da década de 80, representando a Schwing, passei meses, em várias visitas, na Usina de Tucuruí, em construção. Sob a gerência do saudoso “Zé Armando” da Camargo Correa, e com o neto do também saudoso Dr. Newton Cavalieri, de mesmo nome do avô. Ali, tentávamos e conseguimos concretar os “caracóis” com um mastro […]
No começo da década de 80, representando a Schwing, passei meses, em várias visitas, na Usina de Tucuruí, em construção. Sob a gerência do saudoso “Zé Armando” da Camargo Correa, e com o neto do também saudoso Dr. Newton Cavalieri, de mesmo nome do avô. Ali, tentávamos e conseguimos concretar os “caracóis” com um mastro de lançamento de concreto. Várias noites jogávamos truco no acampamento e de vez em quando, comíamos um “teppanyaki” no lúdico restaurante que havia no alto do canteiro de obras.

Me lembro de uma enchente que levou o barro para dentro das casas da Vila dos Operários (em todos os níveis); no dia seguinte fui à cidade e para minha surpresa, lá também houve enchente, exatamente nessa rua da foto. A água havia subido muito mais do que vocês estão vendo aí. A novidade é que não havia nenhum morador reclamando do poder público, nenhuma família de calças arregaçadas retirando o barro, nenhum pertence perdido. Onde estaria o segredo de tal tranquilidade?
Simples, todos os anos o povo (muitas casas) abandonavam o local antes da época da enchente; retiravam tudo, e só voltavam na baixa do rio, quando então limpavam e pintavam novamente suas casas e se mudavam de volta.

A diferença entre estas cenas e as que eu acompanho há décadas na cidade de São Paulo, é que lá em Tucuruí o prefeito não tinha como “dizer em rede de televisão” que a quantidade de chuva era imprevisível. Isso em pleno século 20 com inúmeros recursos e o homem mandando naves espaciais viajarem anos e milhões de quilômetros.
Reporto outro fato da década de 70, mais precisamente janeiro de 1976. Nesse mês após ter sido indicado (agosto 75) pelo então governador Paulo Egydio, para prefeito de São Paulo, o Sr. Olavo Setúbal enfrentava sua primeira enchente. Nós estávamos entregando máquinas no Ibirapuera, numa cerimonia tradicional de todos anos, pois a prefeitura fazia aquisição de máquinas e caminhões, que eram entregues lá mesmo. O prefeito sentou-se ao volante da Arrow, máquina que eu trouxe da Inglaterra para cortar asfalto no lugar dos ruidosos compressores de ar. Ao descer, ele é abordado pelo repórter do jornal O Estado de São Paulo, que como todos, agressivamente lhe perguntou, como ele resolveria as enchentes do dia anterior, ao invés de estar ali numa cerimônia.
O diálogo foi mais ou menos este: “Meu caro repórter, a cidade tem 1000 km de córregos onde são jogados entulhos e tudo o mais; a capacidade da prefeitura é de canalizar 20 km por ano, assim, se eu e todos os prefeitos que me sucederem, todos os anos fizerem 20 km de canalização, em 50 anos, teremos resolvido quase que integralmente esse problema”. Tenho certeza que ele não fez os 80 km que poderia fazer, os demais nem se fale; portanto, em março de 2019, sem grandes cálculos, imagino que pelo menos mais uns 45 anos a partir de agora serão necessários para canalizar todos os córregos.
Na gestão da prefeita Marta Suplicy, foi tomada uma decisão que parecia envolta na maior seriedade, um projeto de limpeza e diagnóstico televisivo (CCTV – Método não Destrutivo, quase um cateterismo de redes urbanas), em dezenas de quilômetros. Infelizmente, os empreiteiros contratados rapidamente foram à Rua Santa Efigênia, e ao invés de adquirir as sofisticadas câmeras indispensáveis para esse trabalho, montaram seus “apetrechos” cinematográficos rudimentares, que resultaram em imagens que faria o Charles Spencer Chaplin e seu Carlitos se envergonharem das cenas captadas. Não deu em nada. Substituída pelo então prefeito José Serra, a primeira coisa que ele faz é romper os contratos e postergar o pagamento, numa ação digna de um “corsário” pois dividiu o pagamento em vários meses e depois chamou os credores de volta para negociar um deságio para pagamento à vista (gente séria, tomando conta do problema da enchente).
Muito bem, durante a guerra da Coréia, os prisioneiros norte-americanos eram submetidos a uma avalanche de “boas noticias mentirosas”. A eles era prometido que no dia da Independência dos EEUU, 4 de julho, iriam para casa. No dia 4 de julho, por desculpas das mais esfarrapadas, a data era prorrogada para outra data sagrada, o dia do “thanksgiving”. Nessa data mais uma enxurrada de desculpas e a data prorrogada para o 1º dia do calendário do Ocidente, e assim chegava outra vez o 4 de julho. Os que acreditavam, abandonavam seus planos de sobrevivência e morriam, assim como os moradores das áreas de risco de deslizamento e enchentes nos bairros de periferia Brasil afora. As autoridades “coreanas” fazem novas promessas, e diferentemente dos moradores de Tucuruí, você permanece ali insistentemente todos os anos no meio da lama, ou soterrado por uma avalanche de terra, perdendo seus entes queridos.
Para concluir, uma citação de Daniel Rops da Academia Francesa de Letras:
“Quando colocamos em nossas cabeças ideias falsas, todos os nossos comportamentos e decisões são igualmente falsos”.
Políticos amigos são especialistas em colocar ideias falsas em nossas cabeças. E tenho dito.